sábado, 15 de novembro de 2008

Meu avô Caetano e a crise mundial


Meu avô Caetano morreu de câncer quando eu tinha 15 anos. Fumava muito...
Era pedreiro. "Sem ambições", dizia meu pai.
"O velho poderia ter muita coisa, ganhar muito mais, ser outra coisa,  mas não tem ambição... vê se não me sai igual  a ele..."
Na época eu não entendia meu avô, mas gostava muito dele. 
Lembro de uma ocasião que estávamos passeando por um laranjal numa fazenda de Americana e eu tive a coragem de perguntar porque meu pai falava tanto que ele se contentava com pouco, que não tinha ambição, que era um péssimo exemplo para os netos. Meu avô, sorriu pra mim, me deu umas polkans que acabara de colher e falou: "Vou te contar um segredo: A gente tem muito mais do que precisa".  Imediatamente concluí  que meu avô era rico e não queria que ninguém soubesse para evitar brigas dos parentes por causa de dinheiro. Achei ( erroneamente ) que as coisas faziam sentido. Como podia, meu avô tão inteligente ser um pedreiro? Falar com todo mundo, sobre tudo com tanta tranquilidade, se não soubesse alguma coisa que ninguém sabia? Ai perguntei onde guardava a riqueza dele, pois, ninguém desconfiava de nada. A resposta só fui entender muitos anos depois de sua morte: "Carrego comigo todos os meus bens".  
Interessante que ouvindo um repórter da CNN falar que a crise atual se deve a redução do consumo nos Estados Unidos e China, imediatamente lembrei do meu avô: "Temos demais, consumimos demais." 
Será que o velho enxergava tão a frente e via  que caminhávamos para um sistema que não conseguiria se sustentar indefinidamente? 
Será que iniciamos a fase inicial de mudança do modelo baseado no consumo como sustentáculo do "way of life"? 
Será que estamos começando a enxergar que o modelo baseado no consumo desenfreado de recursos naturais, matéria-primas e energias não-renováveis é o grande responsável por toda a crise econômica atual? (e quem sabe, pela condição miserável que vive grande parte da humanidade?).
Não.
Acho que não.
Mais provável que meu avô vá continuar sendo considerado um homem sem ambições, que sua frase predileta: "Carrego comigo todos os meus bens", significa somente que é um pobretão.
E a Bolsa vai continuar oscilando até que alguém descubra um jeito do consumo voltar a crescer.



3 comentários:

Mari disse...

Oi Professor Montanari, tudo bem?
Adorei o blog e o texto! Parabéns!

Inclusive o texto me emocionou!
Uma pessoa muito sábia seu avô. Primeiro por ver o que muitos não vêem, o "tesouro escondido"!
Segundo, porque se as pessoas são felizes com o que tem e estão felizes com o que são, por que precisariam de mais? Cada um escolhe a maneira de viver e ser feliz como bem entender, é uma escolha pessoal!

Semana passada estava conversando com o meu sogro sobre isto, que a ambição não é algo ruim, mas que as vezes ficamos ambiciosos demais e esquecemos as coisas que realmente importam, esquecemos de cuidar da alma, esquecemos que a vida é o nosso maior tesouro, esquecemos que vamos embora e vai ficar tudo aí.

Tudo e todos induzem ao "compre, compre, compre..." mas fica realmente a pergunta: precisamos de tanto assim???

Depois vou ler todo o blog!
Boa semana!
Abraço!
Maria Ane,

Henri disse...

Caro Luiz,
parabens pelo avô que vc tem a sorte de ter, por nos deixar partilhar do que pensa e por vc existir em nossas vidas! Gostaria de conhecer teu avô pessoalmente!
Vc sem dúvida tem em si muito dele!Seres humanos deste tipo é que nos fazem ver o que realmente importa!
Continue com o blog e pode estar certo que vou acompanhá-lo!
Grande abraço de saudades!
Sergio

Anônimo disse...

Olá Luiz!

Parabéns!

Lindo espaço e ainda mais iniciando com esse texto ..fiquei emocionada!

se precisar mando mais fotos!