4- Passeando por Reykjavik
A companhia do Patrick me agradava porque ele não fazia o tipo machão que sempre toma a iniciativa e, principalmente porque ele sabia escutar e não queria dominar a conversa todo o tempo.
Pelo caminho eu puxava a conversa e ele sempre complementava minha fala de forma inteligente.
“Você sabia que a Islândia tem somente de 175 mil habitantes e 63% da população mora na grande Reykjavik?”.
“Mais interessante do que isso”, responde ele, “é a projeção feita pela ONU. No ano 2.100 a população da Islândia chegará ao seu patamar máximo que é de apenas 400 mil habitantes e o número de velhos será praticamente igual ao de jovens… A pirâmide da faixa etária deixa de ser aquela que a gente aprende na escola. ”
“Uau… que coisa… A maior cidade do Brasil, São Paulo, este ano de 1960, deve chegar a 3,8 milhões de habitantes…Não consigo imaginar o que é viver num país com tão pouca gente”.
“Eu adoraria”, responde ele.
“Eu, por exemplo, gosto de estar sempre rodeada de amigos. Esta viagem será um grande desafio para mim. Você não gosta de estar cercado de pessoas?”
E ele, citando Charles Bukowski, responde:
"Nunca me senti só. Prefiro estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar”.
“Você diz isso porque ainda não conviveu comigo. Depois de duas semanas você não pensará mais assim”, rebati a declaração dele. Esta minha afirmação deve tê-lo chocado, pois caminhamos em silêncio por uns 5 minutos, antes dele comentar:
"Esta viagem será um grande desafio para mim também”.
"Patrick, ainda bem que estamos indo juntos a cidade. Eu gostaria da sua ajuda. Eu preciso comprar uma barraca de camping. A que tínhamos no Brasil, a do meu pai, era para 4 pessoas. Eu preciso uma daquelas impermeáveis, para 1 pessoa e que pesasse menos de 2 quilos. Eu pretendo dar a volta na ilha acampando e não posso levar muito peso”.
Patrick ficou mudo. Olhou para a direita e para baixo. Percebi que estava incomodado com alguma coisa, pois mordia o lábio inferior franzindo a testa.
“Que foi?”, perguntei, “aconteceu algo?”.
Após uma pequena pausa, respira fundo e responde:
“Eu estava pensando, aluguei um VW Camper, também vou contornar a ilha. Se vc quiser, podemos viajar juntos. Será diferente do que eu e você havíamos planejado, mas acho que será mais seguro para nós dois. Se você respeitar minha privacidade, e eu a sua, não teremos problemas de conviver juntos nesta jornada. O que acha?”.
Sem pensar duas vezes, eu respondi:
“Adoraria! Seria ótimo ter sua companhia no desbravamento desta ilha tão cheia de história e belezas naturais.”
Pela primeira vez, vi Patrick sorrir.
"Ele até que é charmoso: loiro, magro ma no troppo, alto, cabelo curto bem comportado (diferente de meus amigos), barba feita todos os dias, olhos claros e profundos… Será divertido. Talvez, ele até seja virgem… veremos…”. Falei com meus botões enquanto caminhávamos em silêncio.
Nossa primeira parada foi na Hallgrímskirkja. Com 74,5 metros de altura, a Hallgrímskirkja é a igreja mais alta e bonita de Reykjavík sendo que sua construção iniciou em 1945. O nome foi dado em homenagem ao poeta religioso islandês Hallgrímur Pétursson nascido em 1614.
Muitas de suas poesias davam conselho aos jovens:
Aqueles jovens que estão inclinados aos estudos encontrarão fama e honra;
Deus, quando procurado, concederá presentes, se eles se comportarem.
Um cristão mal preparado para a igreja significa vergonha, então, é muito culpado.
O poeta enfatizava a sinceridade, integridade, escrupulosidade e cortesia e indicava que entre as chaves do sucesso estavam a “Boa saúde, um coração alegre, uma boa consciência, o apoio de amigos e estar livre da tristeza e exaustão".
O arquiteto Guðjón Samúelsson, se inspirou nas formas das lavas vulcânicas da Islândia para construir a fachada, essa lava se esfria e se transforma em rocha balsática.
No lindo interior desta igreja se encontra o órgão mais bonito da Islândia. Ficamos encantados.
Saímos de lá para caminhar por Laugavegur , a principal rua de Reykjavik, onde se encontram as coloridas fachadas das lojas e restaurantes, bares e discotecas.
Entrei numa loja de souvenir e comprei um presente para Patrick. Eu disse que se "continuasse com a ideia de gostar de ficar sozinho ficaria parecido com o presente”. "Essa doeu”, respondeu rindo.
De lá, Patrick sugeriu que passássemos pelo porto pois, a principal fonte de receita da Islândia era pesca e ele gostaria de ver e fotografar algum barco pesqueiro.
Como ainda era cedo me convidou para visitar o Museu Nacional da Islândia. Se eu estivesse sozinha esta atração turística não estaria na minha lista.
Mas, ainda bem que ele insistiu para que fossemos. Esse museu foi fundado em 1863 e contém mais de 10.000 objetos dos tempos da colonização até aos nossos dias, incluindo roupas, ferramentas agrícolas, móveis e barcos de pesca.
Gostamos de andar por esta cidade limpa e florida.
Confesso que comecei a ter uma quedinha por Patrick por causa da sua doçura, sua vontade de adquirir conhecimento e entender a cultura de outros países. Tinha só 22 anos, mas apesar de ser muito introvertido era uma pessoa agradável e com conteúdo.
Meus amigos eram mais pé não chão, prosaicos, gostavam de fumar um baseado, beber, dar uns pegas, e principalmente questionar e se rebelarem contra o “american way of life”.
A volta para o hostal foi mais divertida. Patrick se soltou, puxava conversa fiada e ria de suas gracinhas, chegou me abraçar, como se estivesse me segurando para não cair. A certa altura pegou uma pequena pedra roliça de origem vulcânica e me deu dizendo: "aceite essa flor como presente pelo dia de hoje".
A mudança no comportamento do Patrick me vem a mente um poema escrito por Bráulio Bessa:
Sendo eu um aprendiz
A vida já me ensinou que besta
É quem vive triste
Lembrando o que faltou…
Uma pequena mudança
Às vezes traz esperança
E faz a gente seguir em frente.
Felizes da vida chegamos ao hostal.
Na varanda se encontrava aquele mesmo grupo de mulheres. Uma delas se aproxima:
“Olá como vai? Meu nome é Vigdis Finnbogadottir e eu lidero esse grupo de mulheres que querem mudar a Islândia. Eu queria dizer que adoramos o que você disse hoje pela manhã. Se você estiver interessada faremos outra reunião amanhã pela manhã. Estamos planejando um dia de greve em que todas as mulheres da Islândia se recusarão a cozinhar, cuidar das crianças e da casa por um dia inteiro. Lutamos por igualdade de direitos.”
“Obrigado pelo convite". respondi envaidecida. “Mas, amanhã eu e meu colega vamos a Reykjavik buscar uma van que ele alugou e depois seguiremos viagem. De qualquer forma, muito obrigada e se você continuar assim acabará sendo a primeira mulher presidente da Europa e transformará a Islândia no "país mais feminista do mundo".
Ela ficou me olhando imóvel com os olhos arregalados como se estivesse vendo um fantasma…
Não sei porquê eu visualizei o futuro dela. As vezes, eu tenho essas visões e acabo falando sem pensar.
Minha mãe disse que desde pequena eu tinha essa mania de falar coisas sobre o futuro das pessoas, "coisa do diabo”
Mas, se um dia acontecer o que disse ficarei contente, gostei dela e de sua luta.
Voltei-me para Patrick e sem delongas o convidei para jantar comigo às 8 da noite aqui no Hostal. Hoje eles iriam servir a “traditional icelandic soup” com legumes (cenoura, repolho, cebola e pedacinhos de carne de cordeiro), acompanhada de pão. E como prato principal carne de cordeiro assada.
Pelo sorriso do meu novo amigo percebi que gostou da idéia.
Subimos, cada um para o seu quarto. Eu queria tomar um bom banho e colocar a melhor camiseta que havia trazido para impressionar meu companheiro de viagem.
O jantar foi delicioso e a sobremesa mais ainda. Eu optei pelo “Bolludagur”, que é uma espécie de bomba parecida com o “éclair” francês, só que tem formato de bola, recheado com geléia de frutas e coberto com calda de chocolate. Patrick preferiu ficar com Skyr com pedaços de pistache.
Ficamos na varanda jogando conversa fora. A certa altura me aproximo dele e dou um leve beijo em seus lábios e recito um poema de Mario Quintana… senti que ele não esperava por isso, mas sorriu num sinal de aprovação…
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…
Então, eu o convidei para dormir no meu quarto comigo…
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