terça-feira, 28 de julho de 2026

O Peso da Jornada

 


Mil e quinhentos quilômetros de poeira e silêncio.

Toda a minha existência foi moldada aos teus passos,

fui teu alicerce quando o chão era incerto,

tua proteção sob o sol que rachava a terra

e sob a chuva que lavava as pedras do Caminho.


Nunca te deixei vacilar, nunca causei feridas.

Cruzamos fronteiras invisíveis,

marcamos nossa presença no solo de três nações,

acumulando horizontes e paisagens

que hoje guardo em minhas próprias dobras e cicatrizes.

Fomos plenos na cadência do nosso avanço.


Mas a gravidade do tempo cobra o seu tributo.

Sinto que o meu vigor já não sustenta a tua ambição,

minha estrutura cede, a exaustão me consome.

Compreendo o repouso que me é imposto,

a dura hora de ver você atar novos laços

e calçar sua confiança em outro companheiro.


Ainda assim, não temo o escuro do esquecimento,

pois sei que o nosso vínculo transcende o descarte.

Minha pele envelheceu, meu fôlego é curto,

mas ainda guardo força para te guiar em passeios breves,

para sentir a grama mansa sob nós mais uma vez.


Vá descobrir o que ainda não vimos.

Que teu próximo apoio seja tão firme quanto eu fui.

Levo comigo a memória de cada milímetro do mundo.

Adeus.

MONTANARI

JULHO 2026

Minha homenagem a minha bota Salomon 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Viver é Sentir


O vento no rosto

A chuva tocando na pele

O azul do céu se desdobrando

Novas paisagens a cada curva

O som... ah, o som da máquina

Vibrando promessas de liberdade


A estrada ficando para trás

6.284 km de redescoberta

Aos 63, o coração ainda jovem

Pulsando com a adrenalina do desconhecido


Campos floridos dançando ao vento

Lagos tranquilos espelhando nossos sorrisos

Estradas desertas que nos pertenciam

Só nós dois e a Nova Zelândia inteira


O triciclo, máquina fantástica

Carregando sonhos e dois aventureiros

Cada parada, um novo despertar

Cada amanhecer, uma página em branco


O silêncio das montanhas

O sussurro dos vales

A cumplicidade de quem divide

A mesma sede de viver


Um novo amanhã

Porque viver é isso:

Sentir que ainda há estradas

Esperando por nós

Montanari


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Onde Minha Vida Começou

 


Na quietude solene de uma universidade de prestígio, encontraram-se dois corações jovens.


Ele, da engenharia, percebeu a graça dela no silêncio da biblioteca.

Ela, matemática tímida, trazia nos olhos o brilho da inteligência, e a chama da curiosidade.


Movido por uma coragem impulsionada pelo destino, Ele aproximou-se dela com pretexto:

 “Tenho uma dúvida de álgebra, pode me ajudar?”


Devido aquele instante fugaz, descobriram uma afinidade que ia além de números e equações.

Compartilhavam o gosto pelo cinema, o amor pela música clássica: ela, pianista, embalada por Liszt e Chopin, ele: admirador de Beethoven e Bach.


O afeto floresceu veloz, transformando-se em amor ardente e puro.

Ele só precisou de 6 meses para revelar sua ousadia juvenil,  e brincou sobre casarem escondido e ela, com surpreendente convicção, disse sim.


Em segredo, com a cumplicidade de dois amigos, uniram-se em matrimônio, desafiando convenções e expectativas.

A lua de mel, modesta, foi tecida de romance e aventura, um presente de um amigo jornalista.


Quase dois anos viveram a doçura do amor clandestino,

o segredo da união.

A revelação veio só para o sogro, para evitar desgaste na família


O casamento na igreja, abençoado pelo Vaticano, foi a celebração pública do amor, unindo famílias e amigos em júbilo.

Por vinte e quatro anos e dez meses, o amor floresceu,

dando ao mundo dois filhos adorados.


Embora ela tenha partido prematuramente, vítima de uma doença implacável, o legado do amor permaneceu indelével.

Esta não é uma narrativa de tristeza, mas um testemunho da força do amor verdadeiro.


É uma ode à coragem de dois jovens, unidos pelo destino, que construíram uma vida de felicidade e cumplicidade.


Minha história é a prova de que o amor, em sua forma mais pura e dedicada, supera todo obstáculo, deixando um legado eterno de memórias preciosas e afeto duradouro.

 

09/08/2023

(Data que ela faria 70 anos) 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

3.4 - Eu, Nietzsche e Epicuro no Caminho

 


Pés cansados, alma inquieta, sigo a estrada para Santiago,

Buscando não um destino, mas o significado da própria busca.

Epicuro sussurra em meu ouvido sobre o prazer simples e consciente,

Enquanto Nietzsche grita para que eu abrace meu destino fatídico.


Felicidade! Uma busca tão antiga quanto o primeiro fôlego do homem,

Tão efêmera quanto a última gota do orvalho da manhã.

Não a encontro na superficialidade de meros deleites,

Mas na cadência profunda de cada passo embalado pela música.


"Torna-se quem você é", a voz do filósofo me lembra,

E eu, um peregrino de mim mesmo, sigo sempre adiante,

Ultrapassando fronteiras, criando sentido ativamente,

No vazio absurdo de um universo indiferente.


"Amor Fati!" Amo cada bolha em meu pé, cada pedra no caminho,

Pois elas me moldam, elas me tornam quem devo ser.

Nesta jornada que é uma metáfora para a própria vida,

Onde o importante não é chegar, mas tornar-se.


Sou um indivíduo, mas sou também o coletivo,

Epicuro me lembra da importância dos laços pessoais.

Estamos todos entrelaçados nesta teia cósmica,

Onde cada ação consciente se expande para a eternidade.


O Caminho de Santiago é muito mais que uma simples rota!

É a própria existência, condensada em passos medidos.

Tem começo, fim, dor e alegria,

E seu significado pleno? Somente quem o percorre pode atribuir.


Sigo em frente, abraçando cada momento,

Incondicionalmente, como Nietzsche fervorosamente pregaria,

Pois esta jornada, este instante, esta dor, esta alegria,

São tudo o que possuo, são tudo o que sou.


E assim, entre Epicuro e Nietzsche, entre o "eu" e o "nós",

Caminho rumo a Santiago, caminho rumo ao meu verdadeiro eu,

Buscando não a chegada, mas a transformação radical,

Pois, no fim, o Caminho sou eu, e eu sou o Caminho.

Setembro de 2025

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Pela Liberdade de Crer e de Não Crer

 



Hoje, 12 de fevereiro, celebramos o Dia do Orgulho Ateu. E, ao olhar para o horizonte da nossa humanidade, eu tenho um Sonho.


Tenho um Sonho de que, um dia, todas as nações se levantem verdadeiramente laicas. Que os governos sejam guiados pela razão, pela ciência e pela justiça humana, e não pelos dogmas de nenhuma seita, livro sagrado ou religião específica. Sonho com leis escritas para proteger as pessoas, baseadas na ética civil, e não em mandamentos que nem todos seguem.


Mas meu sonho vai além.


Sonho de que a liberdade de consciência seja tão sagrada quanto qualquer templo. Que em cada um desses países laicos, todas as religiões — sem nenhuma exceção — possam ser praticadas livremente, em paz e segurança. Que o direito de rezar seja tão respeitado quanto o direito de não rezar.


Sonho de que o Dia do Orgulho Ateu possa ser celebrado à luz do dia, com a mesma alegria e naturalidade com que celebramos o Natal, a Páscoa ou o Dia do Orgulho LGBTQIA+. Que assumir a descrença não seja um ato de coragem diante do preconceito, mas um simples ato de identidade em uma sociedade madura.


Eu tenho um sonho!


Sonho com o dia em que uma criança não será julgada pela fé de seus pais ou pela ausência dela. Que ela possa crescer em um mundo onde a moralidade não depende do medo do divino, mas do amor pelo humano. Onde a bondade seja praticada não pela promessa do paraíso, mas porque é a coisa certa a se fazer aqui e agora.


Tenho um sonho de que as barreiras da intolerância caiam. Que ateus, cristãos, muçulmanos, judeus, budistas e agnósticos possam sentar-se à mesa da fraternidade, unidos não pela crença no sobrenatural, mas pela crença inabalável na dignidade humana.


Que a nossa "fé" seja na capacidade de construirmos, juntos, um mundo onde a razão nos guie e a compaixão nos una.


Este é o meu sonho. Esta é a esperança com a qual encaro o futuro. E que a liberdade ressoe, para quem crê e, com o mesmo orgulho, para quem não crê.

Montanari 12/02/2026

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

NOVO REBANHO


62- O Rebanho Moderno


Machado de Assis, se vivesse hoje, talvez dissesse:

"Olhai como os homens se agrupam nas telas luminosas

Buscando nos outros a aprovação que não encontram em si"


O instinto de rebanho, velho conhecido nosso

Agora veste-se de pixels e algoritmos

Mas conserva sua natureza primitiva


Veja como se curvam diante dos números!

Um milhão de visualizações é a nova verdade

Como se a quantidade pudesse suprir a qualidade


A ironia do progresso!

Quanto mais nos conectamos, mais nos perdemos

Na busca incessante pelo pertencimento digital


Os sábios de outrora agora dançam

Ao som de melodias efêmeras

Para não serem esquecidos no silêncio da irrelevância


E o pensamento? Esse velho amigo inoportuno

Definha nos cantos escuros da mente

Enquanto hashtags florescem em seu lugar


Eis o novo perigo, meus caros:

"Estar certo quando o rebanho está errado"

É crime que se paga com o ostracismo digital


Bentinho hesitaria, Quincas Borba riria

E eu, pobre peregrino metido a poeta, apenas observo

"Como a humanidade, em sua ânsia de pertencer

Perde-se cada vez mais de si mesma”.


Novembro 2025

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