Mil e quinhentos quilômetros de poeira e silêncio.
Toda a minha existência foi moldada aos teus passos,
fui teu alicerce quando o chão era incerto,
tua proteção sob o sol que rachava a terra
e sob a chuva que lavava as pedras do Caminho.
Nunca te deixei vacilar, nunca causei feridas.
Cruzamos fronteiras invisíveis,
marcamos nossa presença no solo de três nações,
acumulando horizontes e paisagens
que hoje guardo em minhas próprias dobras e cicatrizes.
Fomos plenos na cadência do nosso avanço.
Mas a gravidade do tempo cobra o seu tributo.
Sinto que o meu vigor já não sustenta a tua ambição,
minha estrutura cede, a exaustão me consome.
Compreendo o repouso que me é imposto,
a dura hora de ver você atar novos laços
e calçar sua confiança em outro companheiro.
Ainda assim, não temo o escuro do esquecimento,
pois sei que o nosso vínculo transcende o descarte.
Minha pele envelheceu, meu fôlego é curto,
mas ainda guardo força para te guiar em passeios breves,
para sentir a grama mansa sob nós mais uma vez.
Vá descobrir o que ainda não vimos.
Que teu próximo apoio seja tão firme quanto eu fui.
Levo comigo a memória de cada milímetro do mundo.
Adeus.
MONTANARI
JULHO 2026
Minha homenagem a minha bota Salomon
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