sábado, 8 de fevereiro de 2025

cap 4 - DIARIO DE AMÉLIA

 4- Passeando por Reykjavik

    A companhia do Patrick me agradava porque ele não fazia o tipo machão que sempre toma a iniciativa e, principalmente porque ele sabia escutar e não queria dominar a conversa todo o tempo.

    Pelo caminho eu puxava a conversa e ele sempre complementava minha fala de forma inteligente.

    “Você sabia que a Islândia tem somente de 175 mil habitantes e 63% da população mora na grande Reykjavik?”.

    “Mais interessante do que isso”, responde ele, “é a projeção feita pela ONU. No ano 2.100 a população da Islândia chegará ao seu patamar máximo que é de apenas 400 mil habitantes e o número de velhos será praticamente igual ao de jovens… A pirâmide da faixa etária deixa de ser aquela que a gente aprende na escola. ” 



    “Uau… que coisa… A maior cidade do Brasil, São Paulo, este ano de 1960,  deve chegar a 3,8 milhões de habitantes…Não consigo imaginar o que é viver num país com tão pouca gente”.

    “Eu adoraria”, responde ele.

    “Eu, por exemplo, gosto de estar sempre rodeada de amigos. Esta viagem será um grande desafio para mim. Você não gosta de estar cercado de pessoas?” 

    E ele, citando Charles Bukowski, responde: 

"Nunca me senti só. Prefiro estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar”.

    “Você diz isso porque ainda não conviveu comigo. Depois de duas semanas você não pensará mais assim”, rebati a declaração  dele. Esta minha afirmação deve tê-lo chocado, pois caminhamos em silêncio por uns 5 minutos, antes dele comentar:

    "Esta viagem será um grande desafio para mim também”. 

    "Patrick, ainda bem que estamos indo juntos a cidade. Eu gostaria da sua ajuda. Eu preciso comprar uma barraca de camping. A que tínhamos no Brasil, a do meu pai, era para 4 pessoas. Eu preciso uma daquelas impermeáveis, para 1 pessoa e que pesasse menos de 2 quilos. Eu pretendo dar a volta na ilha acampando e não posso levar muito peso”.

    Patrick ficou mudo. Olhou para a direita e para baixo. Percebi que estava incomodado com alguma coisa, pois mordia o lábio inferior franzindo a testa.

    “Que foi?”, perguntei, “aconteceu algo?”.

    Após uma pequena pausa, respira fundo e responde:

    “Eu estava pensando, aluguei um VW Camper, também vou contornar a ilha. Se vc quiser, podemos viajar juntos. Será diferente do que eu e você havíamos planejado, mas acho que será mais seguro para nós dois. Se você respeitar minha privacidade, e eu a sua, não teremos problemas de conviver juntos nesta jornada. O que acha?”. 

          Sem pensar duas vezes, eu respondi:

      “Adoraria! Seria ótimo ter sua companhia no desbravamento desta ilha tão cheia de história e belezas naturais.

    Pela primeira vez, vi Patrick sorrir. 

    "Ele até que é charmoso: loiro, magro ma no troppo, alto, cabelo curto bem comportado (diferente de meus amigos), barba feita todos os dias, olhos claros e profundos… Será divertido. Talvez, ele até seja virgem… veremos…”. Falei com meus botões enquanto caminhávamos em silêncio.  

    Nossa primeira parada foi na Hallgrímskirkja. Com 74,5 metros de altura, a Hallgrímskirkja é a igreja mais alta e bonita de Reykjavík sendo que sua construção iniciou em 1945. O nome foi dado em homenagem ao poeta religioso islandês Hallgrímur Pétursson nascido em 1614.



    Muitas de suas poesias davam conselho aos jovens: 

Aqueles jovens que estão inclinados aos estudos encontrarão fama e honra;

Deus, quando procurado, concederá presentes, se eles se comportarem.

Um cristão mal preparado para a igreja significa vergonha, então, é muito culpado.

    O poeta enfatizava a sinceridade, integridade, escrupulosidade e cortesia e indicava que entre as chaves do sucesso estavam a “Boa saúde, um coração alegre, uma boa consciência, o apoio de amigos e  estar livre da tristeza e  exaustão". 

    O arquiteto Guðjón Samúelsson, se inspirou nas formas das lavas vulcânicas da Islândia para construir a fachada, essa lava se esfria e se transforma em rocha balsática.  

    No lindo interior desta igreja se encontra o órgão mais bonito da Islândia. Ficamos encantados.

    Saímos de lá para caminhar por Laugavegur , a principal rua de Reykjavik, onde se encontram as coloridas fachadas das lojas e restaurantes, bares e discotecas.

    Entrei numa loja de souvenir e comprei um presente para Patrick. Eu disse que se "continuasse com a ideia de gostar de ficar sozinho  ficaria parecido com o presente”. "Essa doeu”, respondeu rindo. 


     De lá, Patrick sugeriu que passássemos pelo porto pois, a principal fonte de receita da Islândia era pesca e ele gostaria de ver e fotografar algum barco pesqueiro.  

    Como ainda era cedo me convidou para visitar o Museu Nacional da Islândia. Se eu estivesse sozinha esta atração turística não estaria na minha lista.

    Mas, ainda bem que ele insistiu para que fossemos. Esse museu foi fundado em 1863  e contém mais de 10.000 objetos dos tempos da colonização até aos nossos dias, incluindo roupas, ferramentas agrícolas, móveis e barcos de pesca. 



        Gostamos de andar por esta cidade limpa e florida.  

    Confesso que comecei a ter uma quedinha por Patrick por causa da sua doçura, sua vontade de adquirir conhecimento e entender a cultura de outros países. Tinha só 22 anos, mas apesar de ser muito introvertido era uma pessoa agradável e com conteúdo.

    Meus amigos eram mais pé não chão, prosaicos, gostavam de fumar um baseado, beber, dar uns pegas, e principalmente questionar e se rebelarem contra o “american way of life”. 

    A volta para o hostal foi mais divertida. Patrick se soltou, puxava conversa fiada e ria de suas gracinhas, chegou me abraçar, como se estivesse me segurando para não cair. A certa altura pegou uma pequena pedra roliça de origem vulcânica e me deu dizendo: "aceite essa flor como presente pelo dia de hoje". 

    A mudança no comportamento do Patrick me vem a mente um poema escrito por Bráulio Bessa: 

Sendo eu um aprendiz

A vida já me ensinou que besta

É quem vive triste

Lembrando o que faltou…

Uma pequena mudança

Às vezes traz esperança

E faz a gente seguir em frente.

    Felizes da vida chegamos ao hostal.

    Na varanda se encontrava aquele mesmo grupo de mulheres. Uma delas se aproxima:

    “Olá como vai? Meu nome é Vigdis Finnbogadottir e eu lidero esse grupo de mulheres que querem mudar a Islândia. Eu queria dizer que adoramos o que você disse hoje pela manhã. Se você estiver interessada faremos outra reunião amanhã pela manhã. Estamos planejando um dia de greve em que todas as mulheres da Islândia se recusarão a cozinhar, cuidar das crianças e da casa por um dia inteiro. Lutamos por igualdade de direitos.”

    “Obrigado pelo convite". respondi envaidecida. “Mas, amanhã eu e meu colega vamos a Reykjavik buscar uma van que ele alugou e depois seguiremos viagem. De qualquer forma, muito obrigada e se você continuar assim acabará sendo a primeira mulher presidente da Europa e transformará a Islândia no "país mais feminista do mundo".

    Ela ficou me olhando imóvel com os olhos arregalados como se estivesse vendo um fantasma…

    Não sei porquê eu visualizei o futuro dela. As vezes, eu tenho essas visões e acabo falando sem pensar. 

    Minha mãe disse que desde pequena eu tinha essa mania de falar coisas sobre o futuro das pessoas, "coisa do diabo”

    Mas, se um dia acontecer o que disse ficarei contente, gostei dela e de sua luta.

    Voltei-me para Patrick e sem delongas o convidei para jantar comigo às 8 da noite aqui no Hostal. Hoje eles iriam servir  a “traditional icelandic soup” com legumes (cenoura, repolho, cebola e pedacinhos de carne de cordeiro), acompanhada de pão. E como prato principal carne de cordeiro assada. 

    Pelo sorriso do meu novo amigo percebi que gostou da idéia.

Subimos, cada um para o seu quarto. Eu queria tomar um bom banho e colocar a melhor camiseta que havia trazido para impressionar meu companheiro de viagem.

    O jantar foi delicioso e a sobremesa mais ainda. Eu optei pelo “Bolludagur”, que é uma espécie de bomba parecida com o “éclair” francês, só que tem formato de bola, recheado com geléia de frutas e coberto com calda de chocolate. Patrick preferiu ficar com Skyr com pedaços de pistache.

    Ficamos na varanda jogando conversa fora. A certa altura me aproximo dele e dou um leve beijo em seus lábios e recito um poema de Mario Quintana… senti que ele não esperava por isso, mas sorriu num sinal de aprovação…

Se tu me amas, ama-me baixinho

Não o grites de cima dos telhados

Deixa em paz os passarinhos

Deixa em paz a mim!

Se me queres,

enfim,

tem de ser bem devagarinho,

que a vida é breve, e o amor mais breve ainda… 

    Então, eu o convidei para dormir no meu quarto comigo…

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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

capítulo 12-A busca pessoal por significado e o nada

12-A busca pessoal por significado e o nada

NASBINALS A ST-CHÉLY-D'AUBRAC

18 de Abril - tempo frio - 3 a 10 graus - céu azul


A manhã tinha um brilho gélido quando Bernardo e Gabriel deixaram Nasbinals, preparados para enfrentar os 17,4 km que os separavam de Saint-Chély-d’Aubrac. 

O silêncio cortante da manhã era interrompido apenas pelo som rítmico dos bastões de caminhada perfurando a camada fina de neve que cobria a trilha. A terra branca sob seus pés brilhava com o reflexo do sol nascente, criando um cenário idílico e silencioso enquanto a dupla avançava.

Depois de três horas de caminhada, com o frio mordendo seus rostos e os pulmões pulsando com o ar fresco, eles finalmente chegaram ao platô de Aubrac. Foi então que a silhueta da Domerie d'Aubrac emergiu no horizonte, como um presente divino no meio da vastidão. 

Este antigo hospital de peregrinos, originalmente construído em 1060, fornecia abrigo e assistência àqueles que caminhavam rumo a Santiago de  Compostela. As suas grossas paredes de pedra ainda permanecem, um eco imponente de tempos passados, onde fé e solidariedade eram tangíveis.


Diz a lenda que Adalard, um nobre flamengo que estava indo para Santiago de Compostela, chegando ao platô fez uma promessa que se escapasse dos perigos desse "lugar de horrores e vasta solidão", construiria  um abrigo para acolher peregrinos


Hoje, mesmo parcialmente em ruínas, a Domerie d’Aubrac conta essa história através de suas pedras, um testemunho da importância da peregrinação e da bondade humana ao longo dos séculos.

A pequena vila de Aubrac oferece mais que história. É um convite aos sentidos, famoso por sua gastronomia, especialmente queijos locais e o icônico Aligot, um purê de batatas cremoso misturado com queijo. 

Bernardo e Gabriel, atraídos pela atmosfera tranquila do lugar, permitiram-se uma pausa para apreciar iguarias regionais. Com o Aligot aquecendo seus corpos e energizando-os para o caminho adiante, os dois se embrenharam na contemplação das paisagens montanhosas que os cercavam, majestosas e silenciosas.

No entanto, o trecho final do dia se avizinhava como um gigante difícil de domar. A descida de 500 metros até Saint-Chély-d’Aubrac revelou-se um desafio árduo para Gabriel, cujos joelhos já ressentiam o esforço acumulado. Os caminhos, estreitos e irregulares, exigiam atenção e prudência a cada passo. As pedras soltas e os declives acentuados impostores pressionavam incansavelmente suas articulações doloridas.

Mesmo que as vistas panorâmicas oferecessem um consolo visual, expostas em toda a sua glória sob o céu vasto, elas não diminuíram a intensidade da dor que acompanhava cada passo de Gabriel. Determinado a não se deixar vencer, ele seguiu adiante, com Bernardo ao seu lado, encorajando-o com palavras de apoio e pausas estratégicas.

A chegada a Saint-Chély-d’Aubrac foi uma vitória silenciosa, marcada pela visita à encantadora Igreja de Saint-Chély-d’Aubrac. Tanto a arquitetura quanto o ambiente prometeram momentos de paz e reflexão. 

Finalmente, eles encontraram refúgio no acolhedor Chambre d’Hôtes La Carderie. Ali, sob o teto de um lar temporário, Gabriel e Bernardo se permitiram um descanso merecido e um jantar animado regado a 2 taças de vinho. 



pingue-pongue de 18/04: A busca pessoal por significado  e o Nada 

Caro Bernardo, gostei de sua abordagem de ontem sobre a premissa de que verdadeira transformação nas pessoas é impulsionada mais pelas emoções do que por dados ou análises racionais. 

Nessa linha gostaria de compartilhar o pensamento do filósofo francês, Jean-Paul Sartre, que em seu livro "O Ser e o Nada", explora a ideia de que o mundo em si não possui qualquer propósito ou significado intrínseco. 

Esta perspectiva é uma das bases do existencialismo, que sustenta que a vida não tem sentido predeterminado e que cabe aos indivíduos criar e atribuir significado às suas próprias existências.

Sartre argumenta que os seres humanos existem num universo indiferente e sem propósito, o que pode ser visto como inquietante, pois nos deixa sem uma direção ou um destino fixo.

No entanto, essa mesma ausência de um propósito inerente é o que liberta o ser humano para buscar e criar seu próprio significado. 

Com essa liberdade vem a responsabilidade de não apenas escolher nossos próprios valores e objetivos, mas também de aceitar as consequências dessas escolhas.

No entanto, a dinâmica das mídias sociais, das religiões e de várias instituições pode, muitas vezes, entrar em conflito com esta visão sartreana de liberdade. 

Essas entidades, ao perseguirem seus próprios interesses, têm o poder de manipular informações e influenciar percepções, o que pode limitar a liberdade de escolha individual. 

As mídias sociais, por exemplo, através de algoritmos e curadoria de conteúdo, frequentemente guiam os usuários para pensamentos e comportamentos que servem a seus interesses comerciais. 

De forma semelhante, certas instituições religiosas e organizações podem propor roteiros de vida e crenças que, em vez de liberarem, confinam indivíduos em sistemas de pensamento fechados.

Neste contexto, a responsabilidade que Sartre coloca sobre o indivíduo ganha nova relevância. 

Cabe a cada um de nós a tarefa de questionar, investigar e discernir a informação que nos é apresentada para que possamos exercer nossa liberdade de maneira plena. 

Isso implica em um esforço consciente e contínuo para desafiar narrativas impostas, buscar conhecimento e, sobretudo, criar um sentido que ressoe genuinamente com os próprios valores e aspirações.

Assim, em meio às pressões externas das mídias sociais e outras influências, a busca por um significado autêntico se revela como uma jornada complexa, mas vital. 

É um chamado para que usemos nossa liberdade não apenas como um direito, mas como um dever de viver de forma verdadeira e significativa, em um mundo onde tantas forças tentam ditar quem devemos ser e como devemos pensar.

Em resumo, a busca pessoal por significado se torna uma parte fundamental da experiência humana para garantir a própria sobrevivência da espécie frente às inevitáveis mudanças do meio ambiente. 

Prezado Bernardo, esta jornada sabática tem sido profundamente reveladora para mim. Sou grato por você participar comigo desta trajetória de autodescoberta”.

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Este é capítulo 12 do meu ebook : Peregrinação de Pensamentos

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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

CAp 1- ebook - Japão em Contos -

 1- Primeiro contato

Conheci o Japão aos 9 anos. Foi num dia tão triste que nunca esqueci.

Na época, 1961, não tínhamos televisão. Éramos pobres. Eu viajava pelo mundo, à noite, pelas histórias que minha mãe contava para eu dormir e nos fins de semana que passava na casa de meu avô.

Me lembro muito bem que no sábado seguinte ao meu aniversário, meu avô me disse que tinha duas histórias para me contar. 

Uma triste e uma com final feliz.

“Vou te contar a triste primeiro”, disse ele. “Hoje é o dia Internacional de Combate ao Câncer”. 

Na época eu nunca tinha ouvido essa palavra e nem sabia o que significava. Nem imaginava que existia o Dia Internacional Disto ou Daquilo.

“O que é câncer, vô?”

Ele, com sua costumeira paciência de Jó, me contou que era uma doença muito grave. 

“Lembra quando você ficou com a garganta inflamada, não conseguia comer nada, teve febre alta e ficou de cama e teve que tomar injeção para se curar?”

“Sim, foi muito ruim”.

“Então, essa doença é muito pior. Não tem injeção que faz a gente melhorar. Seu tio Teo está com câncer. Quando você fizer 10 anos, talvez ele não consiga ir ao seu aniversário. Ele fuma muito, por isto ficou doente…”.

Tive uma crise de choro que só mais tarde eu entendi o porquê.

Eu gostava muito do meu tio Teo (Teodoro). Ele e meu avô preenchiam um vazio afetivo que meu pai deixara. 

Depois de um chá com bolachas e muitas palavras de consolo, já deitado para dormir, meu avô me conta a "história feliz”. 

E lá foi ele me dizendo de uma linda terra distante chamada Japão, onde vivia um velhinho, chamado Hanasaka:

“Há muito anos, numa aldeia no alto de uma montanha morava um casal de velhinhos que não tinha filhos. Eles moravam sozinhos com seu cãozinho de pelos brancos, igual ao seu querido Bilu. Só que o deles se chamava 'Shirô', que em japonês quer dizer ‘Branco'.

Um dia, Hanasaka estava cuidando da sua horta e o Shirô não parava de latir tentando desenterrar algo com suas patinhas.

 O velhinho decidiu ajudar o cachorro. Pegou uma enxada para cavar com mais facilidade para achar um osso, pensou ele.  

Só que em vez de encontrar o osso de Shirô, o velhinho encontra um pote com moedas de ouro. 


O velhinho, que tinha bom coração, decidiu dividir com os vizinhos as moedas e assim deixar todos felizes. 

Um dos vizinhos, muito invejoso, disse que estava com medo de ficar em casa sozinho com as valiosas moedas de ouro que acabara de ganhar e pediu o cãozinho emprestado por uns dois dias.

Assim que ficou sozinho com Shirô, o vizinho colocou uma corda em volta do pescoço do cãozinho.

'Você vai ter que achar ouro para mim se quiser voltar para sua casa' gritava o vizinho ganancioso enquanto arrastava o cachorro pela redondeza com violência.

Já cansado pelos maus tratos, num determinado momento o cão para e começa a latir. 

O vizinho, pensando que havia achado ouro, mais do que depressa cavou um buraco naquele lugar. E em vez de ouro, achou lixo enterrado que fedia muito.  

Ficou com tanta raiva que deu uma enxadada na cabeça de Shirô que morreu imediatamente.

No dia seguinte, Hanasaka foi visitar o vizinho e descobriu que o acontecera. Chorando carregou o corpo do cãozinho até sua casa e enterrou seu querido companheiro no seu quintal. 

O casal visitava, todos os dias, o local que havia sido enterrado Shirô para depositar uma flor sobre a cova. Eles não conseguiam conter as lágrimas quando lá chegavam.

Na primavera, exatamente no dia 08 de abril, perceberam que uma árvore crescera exatamente sobre o túmulo do cãozinho. 'É um milagre, é o espírito de Shirô que se transformou nesta árvore para nos dizer para não ficarmos tristes', disse o velhinho a sua esposa.

Assim, todos os dias, alegremente eles visitam a árvore para desejar um bom dia ao espírito do seu cãozinho querido.


O tempo passou. 




O inverno chegou e uma forte rajada de vento gelado derrubou a árvore. A esposa do bom velhinho sugeriu trazerem o tronco da árvore para casa. 

Eles acreditavam que dentro do tronco estava o espírito de Shirô. 

"Vamos fazer um pilão com ele, assim podemos preparar a massa para o mochi (bolinho de arroz) que Shirô  tanto gostava", sugeriu a esposa. 

E assim fizeram.

Quando usaram o pilão pela primeira vez presenciaram um novo milagre: o arroz  socado havia se transformado em moedas de ouro. 

Mais uma vez, o bom velhinho decidiu compartilhar as moedas  de ouro com seus vizinhos. 

Ao saber do novo milagre, o vizinho invejoso, foi a casa de Hanasaka, chorando e se desculpando pelo que aconteceu no passado. Para se redimir pediu emprestado o pilão dizendo que iria fazer moedas e distribuir todas elas para a vizinhança, como demonstração de seu arrependimento. 

Na verdade, sua intenção era ficar com todas moedas e se mudar do vilarejo. 

Ao chegar em casa, começou a socar o arroz que em vez de se transformar em ouro, se transformou em uma pasta mal cheirosa. E quando mais socava mais mal cheirosa ficava.

Furioso, cortou o pilão em pedaços e ateou fogo. 

Quando Hanasaka foi buscar o pilão, só encontrou cinzas. Pacientemente, recolheu todas as cinzas  e dirigiu-se para sua casa. Ao passar pelo quintal uma forte rajada de vento espalhou um pouco da cinza sobre uma árvore morta que imediatamente começou a florecer.  De suas ramas, pouco a pouco, começar a surgir lindas flores de cerejeira até que todos os ramos ficaram repletos de flores e um forte perfume se dispersou pelo ar.

A noticia se espalhou pela aldeia e chegou até aos ouvidos dos samurais do reino.

O bom velhinho, carregando o pote com as cinzas, foi escoltado até a “Cidadela do Castelo” onde  moravam os samurais, os nobres e Daimyo, o senhor feudal do Japão. 

A pedido do soberano, o velhinho espalhou as cinzas pelas árvores da região e, para alegria e espanto de todos, brotaram novas e belas flores de sakurá. 

O nobre ficou tão satisfeito que recompensou regiamente o Hanasaka, e ordenou que todos do reino passassem a chama-lo de Hana-saka-Jijii, que significa “o velho que faz florescer as árvores”.

 Até hoje as flores da cerejeira, por sua beleza e brevidade, são consideradas a flor símbolo dos samurais”.


    “Que linda história. Vô, eu prometo para o senhor que vou conhecer o Japão quando for grande”. 

Meu avô saiu do quarto, sem dizer nada, e voltou com uma moeda de 20 centavos com furo na borda. 

Entregou a moeda e disse:

“Então, você precisa visitar o Parque Memorial da Paz numa cidade chamada Hiroshima e deixar esta moeda num dos vasos de flores do Memorial”.

Eu guardei aquela moeda por 53 anos, até cumprir minha promessa. 

Parque Memorial da Paz. 

E a Cúpula da Bomba Atômica (ruínas do Antigo Centro de Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima).


Capítulo 1 do meu ebook: JAPÃO EM CONTOS


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