domingo, 13 de fevereiro de 2022

Um americano no meu Caminho

 




O jantar no hostal de Rabanal del Camino foi servido numa sala pequena onde mal cabia a mesa de 10 lugares e um balcão com os pratos quentes, a salada, água, vinho da casa, café e gelatina!!!.  (Por 10 euros, até que estava muito bom).

Os Peregrinos se ajeitaram sem reclamar e a proximidade acabou servindo para melhorar a interação entre eles.

Me chamou atenção um senhorzinho carismático de cabelos grisalhos e barba branquíssima que sentado numa das pontas da mesa. Sua vestimenta mais parecia alguém que iria fazer um safari do que de um peregrino. Seu sorriso e olhos tinham o brilho da juventude constrastando com sua pele enrugada e envelhecida.

Era um americano contando em espanhol que estava fazendo um tour pelo Caminho de Santiago para conhecer os trechos mais históricos. Havia contratado uma empresa para dar o suporte. Andava 6 a 8 quilômetros por dia nos trechos mais bonitos. Tentava ficar hospedado em albergues privados onde poderia ter mais contato com peregrinos do que ficasse em hotéis. Havia um carro de suporte para levá-lo e buscá-lo nestes trechos. Só carregava uma pequena mochila com água, documentos pessoais e o celular. Estava adorando a experiência.

Ele provavelmente era um ENFJ pela minha análise rápida de personalidade. Acho que ocupava alguma posição de liderança quando trabalhava. Era a pessoa mais carismática do grupo, irradiava confiança e falava com paixão. Sem dúvida ele liderava a conversa da mesa.

FIQUEI IMPRESSIONADO QUANDO FALOU QUE VIVIA SOB A RÉGIA DOS MANDAMENTOS DA TERCEIRA IDADE. 

As pessoas riam a medida que explicava o significado de cada um deles, sempre com uma piada. Omiti as piadas, mas tentei ser o mais fiel possível ao que ele falou (minha memória já não é mais a mesma!):

"1- NUNCA DIGA QUE VOCÊ É VELHO 

A vida é atividade e o segredo da juventude é o dinamismo. Por isto estou fazendo este passeio, caminhando, conhecendo novas pessoas. Muito melhor do que ficar reclamando do governo no Twitter.

2- SUA FORTUNA É SUA SAÚDE FÍSICA E MENTAL.

Quero continuar sendo rico. Reduzi a bebida e o sexo…Caminho todos os dias. Não quero depender de ninguém. Eu me cuido. Não quero filho ou parente dizendo o que posso e não posso fazer.

3-DINHEIRO TAMBÉM É IMPORTANTE. 

Mantenho uma reserva. Não gastei tudo o que ganhei. Quero continuar sendo independente. Não conto com meus filhos para cuidar de mim. Lá nos Estados Unidos tem muitos flats para idosos. Eu, planejei minha vida financeira para viver num espaço só meu. Não importa que seja pequeno. É meu!

4-AGORA É HORA DE RELAXAR E APROVEITAR O TEMPO QUE RESTA.

A idéia é viajar o máximo que puder. Se não der para viajar, dançar. Se não der para dançar, ouvir música. Cultivar amigos para cima. Se afastar daqueles que vivem só reclamando. O tempo é precioso. A idéia é viver o momento.

5-CULTIVE A AUTOESTIMA. 

Quem se ama vive mais. Quem cuida da própria aparência vive mais. Eu vou na manicure e na barbearia uma vez por mês. Não uso roupa de velho. Já fui pedido em casamento algumas vezes…

6- LEMBRE-SE QUE TUDO MUDA. 

Não ache que por você ter vivido muito sabe o que é certo e o que é melhor.  Não se torne um velho presunçoso, intrometido ou rabugento. Fique na sua. Só emita uma opinião quando solicitado.

7-APRENDA A TER UMA ATITUDE POSITIVA.

Nada de guardar rancor. Quando você aprende a perdoar e esquecer, você vive mais feliz. Não perco tempo com o passado.O negócio é viver o momento. A morte é inevitável, todo mundo tem que passar por isso. Não tem sentido viver com medo de morrer.

Esta última fala do americano me fez lembrar uma poesia de Fernando Pessoa:

"QUANDO VIER A PRIMAVERA,

SE EU JÁ ESTIVER MORTO,

AS FLORES FLORIRÃO DA MESMA MANEIRA

E AS ÁRVORES NÃO SERÃO MENOS VERDES QUE NA PRIMAVERA PASSADA…

PODEM REZAR LATIM SOBRE O MEU CAIXÃO, SE QUISEREM.

SE QUISEREM, PODEM DANÇAR E CANTAR À RODA DELE.

NÃO TENHO PREFERÊNCIAS PARA QUANDO JÁ NÃO PUDER TER PREFERÊNCIAS."

Toda a nossa preocupação como idoso, argumentava o americano, deve ser com a vida, com a nossa saúde física e mental, viver ansioso com o que vai acontecer no futuro é para perdedores (loosers) …

Essa de rotular as pessoas de “loosers" é bem coisa de americano, pensei, enquanto outros peregrinos travavam uma discussão sobre os mandamentos.

Acho super legal quando temos esses jantares coletivos nos albergues. Temos contato com peregrinos de diversos países. Todos procuram ser gentis e deixar o ambiente bem humorado.


Fiquei muito feliz por ter jantado com esse grupo.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

NÃO OLHE PARA TRÁS…

 


Ludivik um garoto finlandês autista que recebeu uma educação especial desenhada por seu pai um um grupo de professores amigos da família.

Vou relatar aqui um episódio.

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“Ludivik, o que você sabe da história do mito de Orfeu? “

“Sinto, não sei nada professor, mas qual a relação disto com o tema que estou estudando?”.

"Na mitologia grega, Orfeu, músico e poeta, filho do poderoso deus Apolo, se apaixonou por Eurídice. 

Orfeu e Eurídice resolveram se casar. No entanto, pouco antes do casamento, Eurídice foi mordida por uma cobra.

Desconsolado, Orfeu resolveu descer ao mundo de mortos e pedir a Hades, deus dos mortos, sua esposa de volta para uma segunda vida. Só o consegue com a promessa de não olhar para trás até que os dois saiam dos umbrais do inferno.

Corroído pela dúvida se, realmente, Eurídice vinha atrás de dele durante a volta, Orfeu não resiste e olha para trás.

 Ao desobedecer Hades, Eurídice foi levada ao mundo dos mortos, sem previsão de volta.

Ludivik, qual o significado para o gesto de “olhar para trás”? 

“Ainda não sei, professor!”


“Então, para te ajudar contando uma história que aconteceu em SODOMA:

 Dois estranhos (anjos viajantes) que se hospedaram na casa de Ló instruíram que Ló e sua família abandonassem a cidade porque eles vieram para destruí-la.

Entre outras recomendações disseram que eles, de forma alguma, deveriam “não olhar para trás” durante a fuga. 

Ocorre que a mulher de Ló olhou. “Tendo olhado para trás, transformou-se numa coluna de sal” (Gênesis , 19, 12-26)". 

Ludivik, estes dois episódios podem suscitar divergências de interpretação, mas não há como deixar de perceber as semelhanças na punição para o gesto de “olhar para trás

OLHAR PARA TRÁS SIGNIFICA MIRAR O PASSADO! 

TALVEZ,  DESEJÁ-LO! 

Muitos do nosso grupo de professores elegeram como tema a expressão 'NO PAST’ traduzido para o português, “NÃO AO PASSADO”). 

Outros do grupo, mais pessimistas e deprimidos com a perspectiva humana, inverteram os termos e ficaram com a expressão 'NO FUTURE’ (em tradução para o português, “SEM FUTURO”).

Você está sendo preparado para entender o significado destas duas linhas de pensamento e definir a qual grupo você se alinhará…” 

Depois daquele encontro tudo passou a fazer sentido para mim. Meus pais acreditavam que 'não dá para olhar para trás’ e que o 'futuro trará muitas dificuldades que não serão resolvidas com a mentalidade atual'

Nessa minha jornada solitária, eles esperavam que eu tivesse um comportamento diferente dos jovens que a sociedade está formando.

Segundo o professor Nils: “O QI médio da população mundial vem reduzindo nos últimos 20 anos. O nível da linguagem e de raciocínio dos alunos estão cada vez mais baixos. 

Os alunos estão se tornando mais individualistas, narcisistas, agressivos verbal e fisicamente nas escolas e nas redes sociais, o que reforça o totalitarismo da ideologia dominante… como consequência, essa geração não percebe que a humanidade caminha para o caos social e econômico… 

“Ludivik, em 2030, quando você fizer 30 anos, estima-se que a população mundial seja de 8,3 bilhões de pessoas, pressionando fontes de energia, água, alimentos, uso da terra e extração mineral, sobretudo no mundo em desenvolvimento". 

“…90% da população jovem vive em países em desenvolvimento… jovens de 15 a 24 anos de idade representam 40% da população mundial desempregada…”

“…investimentos em políticas que assegurem empregos aos jovens e garantam o desenvolvimento do capital humano são medidas absolutamente necessárias, mas não suficientes, para minimizar o caos social amplificado pelos efeitos negativos provocados pelo aquecimento global e pandemias…”

“…a tentativa de migração entre países tenderá a se intensificar em função de fatores econômicos, de conflitos nacionais e principalmente por causa da degradação ambiental…"

"As diferenças de oportunidades econômicas, desigualdade de renda e segurança pessoal deixarão de ser as principais causas da tentativa de deslocamento humano entre países. A fome e os efeitos da destruição de terras habitáveis causadas pelas mudanças climáticas assumirão o topo da lista…"

"MUDAR OU MORRER SERÁ O MOTE A PARTIR DE 2030…"

"Consequência inevitável deste movimento será o fechamento das fronteiras e imposição rígida para aceitação de imigrantes". 

"Cada país priorizará a sua própria população. Imigrantes serão rejeitados como “excedentes”. Os diferentes, os não nativos, sofrerão e serão rejeitados pela comunidade. 

A luta pela homogeneidade ganhará força contra a atual pregação dos benefícios da diversidade cultural e racial…”

 “QUAL O GRUPO QUE ESTÁ COM A VISÃO MAIS PRECISA DO EVENTUAL FUTURO? 

Os que acreditam que NÃO DEVEMOS OLHAR PARA TRÁS e propor mudanças radicais à sociedade atual 

ou 

O grupo que prega que NÃO HAVERÁ FUTURO, que estamos condenados e só nos resta trabalhar para minimizar os estragos e preparar a sociedade para o Armagedom…”

PS.:

Tive acesso a informações do caso Ludivik o que me motivou a escrever o ebook: O DESPERTAR DE LUDIVIK

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

ACONTECEU COMIGO!!!? Na Alemanha…uau?

 


Adoro a Alemanha. Em 2010, fiz de triciclo a turística Rota Romântica. Foram pouco mais de 400 km entre Würzburg e Füssen. 

As cidadezinhas medievais sempre me atraíram…

Minha parada favorita neste trajeto foi Rothenburg ob der Tauber. Passei 4 dias por lá. 

A cidade é linda, com ruas de paralelepípedo, casinhas lindas usando o método construtivo enxaimel, todas decoradas com flores e fachadas coloridas…um conto de fadas.

Rothenburg ob der Tauber em 1.170, em plena Idade Média e já tinha a praça central (Marktplatz), a Igreja de St. Jakob e o Castelo Staufer. 

Três quilômetros de muralhas e torres, construídas durante o século XIII, circundam a cidade… e é possível caminhar por elas.

Me hospedei no hotel Alte Brau­haus, por estar bem no centro e ter um bom estacionamento para o triciclo. O edifício foi no passado um antiga cervejaria, mas as acomodações eram ótimas.

No meu segundo dia, um sábado, desci para tomar o café da manhã. Todas as mesas estavam ocupadas. Um senhor, que estava sentado sozinho, acenou para que eu compartilhasse a mesa com ele. 

Seu nome era Asa Carter, um americano cinquentão, simpático disse que conhecer Rothenburg fazia parte da sua Bucket List (lista do que fazer antes de morrer). 

Acabamos ficando amigos. Tomamos muita cerveja juntos. 

Após tomarmos mais cervejas e Steinhaeger Schlichte do que deveríamos, na noite de segunda, numa mesa de bar, veio a surpreendente revelação. Ele me contou sua história. Asa Carter não era um turista comum. 

O filme "Fora da Lei" dirigido e estrelado por Clint Eastwood foi baseado em um de seus livros ("Gone to Texas") que escreveu com o pseudônimo de Forrest Carter.

“Por que você não usou o seu próprio nome?”, indaguei para meu colega.

"Meu verdadeiro nome, Asa Earl Carter, deixou de ser bem visto. Adotei Forrest Carter para fugir do meu passado. Deixei o bigode crescer mudei meu cabelo e de estado”, responde meu colega.

“O que aconteceu?” pergunto.

Ele sem muita papas na língua responde. "Fui líder da Ku Klux Klan, escrevi vários discursos anti-semitas e segregacionistas e, só muitos anos depois me tornei um romancista. Eu escrevi o discurso para a cerimônia de posse do governador George Wallace e a frase que ficou famosa: "Segregação agora, segregação amanhã, segregação para sempre". Acho que até vocês, no Brasil, ouviram comentários sobre este discurso."

Cheguei a concorrer nas primárias democratas para governador do Alabama com uma chapa segregacionista. Não tive sucesso. Mesmo assim, continuei atuando por bom tempo na KKK.

Como meu relacionamento com George Wallace se deteriorou muito por ele amolecer com a proposta segregacionista, me senti traído, então decidi abandonar o política, mudar de nome e me dedicar a escrever romances. O meu mais famoso best seller foi "The Rebel Outlaw: Josey Wales” (em tradução livre, “O bandido rebelde: Josey Wales”).

“Não nego que continuo sendo segregacionista. Os brancos são superiores aos negros e aos judeus. Jesus era branco. Duvido que no céu haja negros. Nem na última ceia havia negros. Deus é branco. Os Estados Unidos tem 50 estados e somente 6 estados conseguiram eleger um senador negro. 

Infelizmente, o problema é que o país está apodrecendo  e perdendo espaço para abortistas, defensores dos direitos humanos, feministas, judeus, defensores dos LGBT'S e para o lobby antiarmas. Não sei onde vamos parar…”

  “Sinto muito”, interrompi Carter, “você é um cara legal, mas de forma alguma compactuo com sua visão de mundo. 

A tendência, no futuro, é a humanidade reconhecer que todos têm os mesmos direitos, ninguém é superior a ninguém independente de credo, cor, nacionalidade, orientação sexual, afinal somos todos moradores do mesmo planeta. 

Nosso pensamento evoluí e continuará evoluindo neste sentido. As pandemias e catástrofes naturais, num primeiro momento dividirão a humanidade em grupos. Mas, com o tempo, perceberão que a sobrevivência de um grupo em detrimento de outros, a longo prazo causará o fim de todos. 

Evoluiremos para sobreviver.

Aristoteles falava que os asiáticos eram inteligentes e covardes, os loiros do Norte eram valentes, mas ignorantes. E que somente os gregos haviam sido agraciados pelos deuses com a inteligência e a valentia. Eram superiores.

Quem apoiaria uma afirmação destas hoje?

Na Idade Média, nas Universidades ainda era discutido se camponeses estavam aptos a conviver em sociedade pela dificuldade de se expressarem na língua das cidades. Eram bichos. Daí que surgiu (nas Universidades) o termo “bicho" que precisava passar por um trote (teste) para provar sua aptidão. 

Quem concorda, nos dias atuais, que os trabalhadores do campo não estão aptos a conviver nas cidades? 

A igreja católica adotou, por muito tempo, o pensamento de Tomás de Aquino sobre hierarquia. Do Senhor, descendo aos arcanjos e anjos, chegando aos sacerdotes e passando aos leigos poderosos para atingir as pessoas comuns. 

Desta forma Deus encontra-se além de todos os nossos sentidos e apenas por intermediários recebemos a sua ajuda. 

Contra esta visão de privilégios para os que estão mais próximos a Deus, surge Calvino, para quem a comunidade é mais importante do que a hierarquia eclesiástica.

Alguns séculos depois “Nós, o povo dos Estados Unidos, a fim de formar uma União mais perfeita, estabelecer a justiça, assegurar a tranqüilidade interna, prover a defesa comum, promover o bem-estar geral, e garantir para nós e para os nossos descendentes os benefícios da Liberdade, promulgamos e estabelecemos esta Constituição para os Estados Unidos da América…”

Como sociedade evoluímos muito até agora. Mas, ainda há grupos que vivem sob a régia de ideólogos autoritários do século passado. Abraçando uma cultura de relações de poder, de valorização familiar, favorável à religião, rejeitando costumes que consideram “contrários à natureza”, contrários aos movimentos de minorias como os feministas, LGBT, negros, indígenas e outros.

Você, Carter, não percebe que sua aceitação cega, sem questionamento, no que diz sua religião e na doutrinação que teve quando criança da superioridade da raça branca te impedem de aceitar fatos que contrariam seus pressupostos?. 

Você consegue entender como é limitante o seu modo de pensar? 

Sua visão de hierarquia de raças, sua crença em povos escolhidos por um suposto Deus, sua crença em vida pós-morte, tudo isto limita nossa responsabilidade, como humanos, com a continuidade da vida no planeta. 

E o pior, não valoriza o aqui e agora, banaliza o fato extraordinário de estarmos vivos, de pensarmos e sentirmos e glorifica uma suposta vida após a morte ao lado de um suposto criador.

Carter, você não enxerga que o seu nacionalismo irrestrito é semelhante ao fanatismo religioso? 

E que o seu nacionalismo contempla todos os cinco "sinais de alerta” de quando a religião se torna má, descritos por Kimball em seu livro When Religion Becomes Evil (em tradução livre, “Quando a religião se torna má”).  

Se você não os conhece, os 5 sinais são: 

1-afirmações de uma verdade absoluta, 

2-obediência cega, 

3-noção de que o mundo não é perfeito, mas no tempo certo Messias virá

4-os meios justificam os fins e 

5-a declaração de Guerra Santa.

Eu enxergo que a religião pode até dar uma contribuição para a vida política, mas, na maioria dos países, é uma influência negativa. Muitas vezes sendo hipócrita, arrogante e autoritária. Desperta impulsos, às vezes irracionais que podem causar estragos. E frequentemente gera intolerância à outras religiões e predisposição à violência. 

“Luiz, eu te ouvi atentamente”, comenta Carter, “agora, por favor, me escute e sem me interromper, OK? E aproveita para tomar outra cerveja com calma.

Não consigo provar a existência de Deus, mas há muitas razões para acreditar em Deus. A primeira é que nada que a ciência descobriu explica a existência do Universo. O Universo é tão perfeito e belo que sugerem que uma mente racional está por trás de tudo. Assim como a existência de seu iPod demonstra que existe alguém que o inventou, o mundo em toda sua complexidade aponta para a existência de um Criador, Deus. 

No que diz respeito à origem do mundo, a Bíblia diz que Deus o criou (Gênesis 1:1, João 1:3, Hebreus 11:3). O livro de Gênesis declara que a criação é boa e diz que Deus ficou satisfeito com sua obra. 

Numa coisa você tem razão, o mais importante é entender o   porquê. Por que Deus criou o homem?

São Tomás diz que o objeto de Deus ao criar foi Ele mesmo; Ele criou para manifestar sua própria bondade, poder e sabedoria e se agrada daquele reflexo de Si mesmo. 

Deus é a fonte, centro e objeto de toda a existência. Esta é, portanto, a razão suficiente para a existência do universo.

O homem tem que se conformar ao propósito supremo da criação e não discuti-la. 

A doutrina da Trindade é o ponto central da minha religião, o Cristianismo. Deus é uma relação de amor entre Pai, Filho e Espírito Santo. A essência de Deus é relacionamento.

O plano de Deus foi unir todos as pessoas de fé na terra e no céu através de seu Filho Jesus Cristo (vide Efésios 1: 9-10).

 Na minha visão a família é o base de tudo. Fomos criados para  nos relacionarmos com Deus, com nossa família e com as pessoas que pensam como nós.

Não dá para argumentar com infiéis, traidores, negros, defensores do aborto e do movimento LGBT. Só nós resta lidar com eles pela força.  Essas pessoas possuem crenças para as quais não há justificativa, e são impossíveis de serem toleradas por pessoas de bem. Elas estão contaminando e destruindo nossa sociedade. Nesta situação, a melhor alternativa para garantir nossa sobrevivência é atacá-las, enfraquecer sua base de sustentação. Isso parece criminoso, mas pode ser o único curso de ação disponível para nós, dado o que no que essas pessoas acreditam e defendem”.

Eu não conseguia acreditar o que estava ouvindo. Para dar um respiro antes de retornar ao assunto, eu disse que  precisava ir ao banheiro: “Muita cerveja, preciso dar um pulinho no toalete, volto logo…”.

Quando retornei à mesa só encontrei meu copo de cerveja e o que sobrara meu do Rothenburger Ritterrolle (um tipo de wraps de pão achatado que lembra um burrito). 

Não estava lá nem o copo de cerveja dele e nem o prato de Bierschinken wurst (linguiça de presunto) que ele estava comendo. Logo pensei: "Carter não gostou do meu comentário”.

Chamei o garçom e perguntei do meu companheiro. E ele me responde com um ar de espanto: “Me desculpe, ele saiu e disse que o senhor pagaria a conta.”.

Desconfiei do garçom, mas não disse nada. Agradeci, paguei a conta e voltei para o hotel. 

Chegando lá , pedi para a recepcionista ligar para o quarto de Asa Carter. Ela me informa que ninguém com esse nome estava hospedado lá. Pedi para tentar por Forrest Carter. 

“Senhor, não tem nenhum Carter neste hospedado neste hotel”.

Fui pesquisar na internet se havia existido Asa Carter.  Assustado descobri que Carter havia falecido em 1979…

Quem se passou por ele? 

E por quê? 

Quem foi Carter na vida real? 

Decidi pesquisar. Eu precisava entender o significado daquilo tudo. Afinal sou um ENFP e como tal, tenho a tendência de ver  todas as coisas como parte de um grande e misterioso quebra-cabeça chamado vida.

Tudo o que meu suposto colega, o desconhecido farsante, disse era verdade. Carter nasceu em 1925 e realmente escreveu o discurso contendo a famosa frase "Segregação agora, segregação amanhã, segregação para sempre", e concorreu nas primárias democratas para governador do Alabama em uma chapa segregacionista. 

Anos depois, sob o pseudônimo do suposto escritor Cherokee Forrest Carter, escreveu The Rebel Outlaw e The Education of Little Tree, livro premiado e best-seller que foi comercializado como um livro de memórias.

Eu tive a curiosidade de ler o livro “O Aprendizado de Pequena Árvore (em inglês, The Education of Little Tree) para tentar entender Carter um pouco melhor.

O livro conta a suposta infância do autor com os avós meio-cherokee (Vovô e Granma). Se passa nos anos 30, auge da Grande Depressão. Após ficar órfão, Pequena Árvore, nome indígena de Carter, foi morar com seus avós nas montanhas, nesse período de convivência com os índios Cherokees teve a oportunidade de conviver com a natureza aprender seus segredos, e mistérios.

A história se passa do quinto ao décimo ano de vida do menino, quando ele conhece seu novo lar em um vale remoto na montanha.

O livro é tocante, enche nossos corações de esperança. Traz a mensagem que devemos “recolher da natureza apenas o necessário para sua vida”. 

Forrest Carter relatando a sua infância, nos faz refletir sobre a nossa própria vida, o que é “necessário” para sermos verdadeiramente felizes?

A medida que lemos nos encontramos, escalamos montanhas, cruzamos rios e choramos por Pequena Árvore, por nós, pela vida…Conhecendo as coisas do mundo: que há religiões que dividem em vez de unir as pessoas, que há os que praticam o bem e os que permitem a maldade, que existe o “eu” e que existe o “outro”, e que podemos ser felizes, viver em paz, todos juntos. 

Somos um povo só, a terra é um mundo só. As injustiças cometidas com os índios Cherokee no inicio do século passado, relatadas pelo avô de Pequena Árvore, acontecem também hoje, com os índios, com a natureza. Somos levados a perceber que cometemos estas injustiças, assim como todos, sem exceção, pois estamos ligados na “teia” da vida.

O final comovente enche de lágrimas nossos olhos, mas antes, faz rir, pensar e fundamentalmente mexer com nosso jeito de olhar tudo ao redor, as pessoas, a natureza, os índios e nós mesmos.

Lendo o livro fiquei horrorizado como um segregacionista, líder da Ku Klux Kan, conseguiu ser tão maquiavélico a ponto de escrever “O Aprendizado de Pequena Árvore” somente para se lançar como romancista e criar uma nova vida como Forrest Carter, baseando-se em memórias familiares fantasiosas e fraudulentas, como ficou provado anos depois.

Nunca me esquecerei de Rothenburg ob der Tauber e do  meu colega misterioso.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

ELE ESTÁ VIVO…NA MEMÓRIA!

 


Fernando, meu amigo já falecido me apresentou a Thomas Paine.

Meu presente, na despedida final, foi o livro "The Age of Reason" de Paine.  Tenho certeza que ele entendeu o gesto, por saber quanto eu adorava aquele livro…

Talvez, pela idade, sinto saudades de nossas conversas… Confesso que escrevo estas linhas  com lágrimas nos olhos ouvindo “Un Da Sie Die Statte Kamen, trecho do Bach que tanto gostávamos…

Relato para você, (que agora só existe como unidade na minha memória e voltou a ser esparsas moléculas integrantes do Universo), alguns dos trechos que mais geraram discussões acaloradas entre nós. Se lembra?

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1-Um bom professor é mais útil do que cem padres.


2-Não creio no credo professado pela igreja judaica, pela igreja romana, pela igreja grega, pela igreja turca, pela igreja protestante, nem por nenhuma igreja que eu conheça. Minha mente é minha própria igreja.


3-Todas as instituições nacionais de igrejas, sejam judaicas, cristãs ou turcas, parecem-me nada mais do que invenções humanas criadas para aterrorizar e escravizar a humanidade e monopolizar o poder e o lucro.


4-Sempre apoiei vigorosamente o direito de cada homem à sua opinião, por mais diferente que essa opinião possa ser da minha. Aquele que nega a outro este direito, torna-se escravo de sua opinião atual, porque se exclui do direito de mudá-la.


5-É necessário para a felicidade do homem que ele seja mentalmente fiel a si mesmo. 


6-A perseguição não é uma característica original em nenhuma religião; mas é sempre a característica fortemente marcada de todas as religiões estabelecidas por lei.


7-Quer durmamos ou acordemos, o vasto mecanismo do Universo ainda funciona.


8-O personagem de Moisés, conforme declarado na Bíblia, é o mais horrível que pode ser imaginado. Se esses relatos forem verdadeiros, ele foi o desgraçado que primeiro começou e travou guerras por conta ou sob pretexto de religião; e sob essa máscara, ou aquela paixão, cometeu as atrocidades mais incomparáveis que podem ser encontradas na história de qualquer nação.

Ele reza ditatorialmente. Quando sol está quente, ele reza por chuva, e quando chove, ele reza por sol. Ele segue a mesma ideia em tudo que reza. Para o que é todas as suas orações, senão uma tentativa de fazer o Todo-Poderoso mudar sua mente, e agir de outra forma? 

É como se ele dissesse: O Senhor não sabes tão bem como eu.

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Adorávamos o confronto de idéias e tudo terminava em chopp e abraços.

Já não se fazem mais amigos como antigamente…

Feliz aniversário.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Eu estive lá

        Kyoto foi a capital do Japão por mais de 1.000 anos, símbolo da cultura tradicional japonesa e do budismo.

    No total Kyoto tem cerca de 1.660 templos budistas, mais de 400 santuários Shinto e 90 igrejas cristãs. Um paraíso para quem gosta de fotografia…


Lembro bem que o meu primeiro dia sozinho no Japão tive alguma dificuldade para me familiarizar com o sistema de metrôs e localizar os monumentos de interesse, mas sempre encontrei alguém para me ajudar. Teve uma vez, voltando de um dos passeios, em que perdi o senso de direção e não conseguia achar o metrô. Pedi ajuda para uma mulher, que pela vestimenta parecia trabalhar na área de segurança. Ela me acompanhou por quase três quarteirões e me deixou na entrada do metrô e depois retornou na direção que viera. ELA, CLARAMENTE, SE DESVIOU DO SEU CAMINHO PARA ME AJUDAR.


Sempre que posso, tento visitar bairros distantes dos pontos turísticos para sentir como vive a população e não ficar somente com a impressão que os turistas carregam da cidade. Sempre encontro algo “interessante".

O FATO MAIS INTRIGANTE ACONTECEU QUANDO PEGUEI a linha Karasuma Line e depois a Kintetsu Kyoto Line do metrô rumo ao extremo sul de Kyoto. É SOBRE ISTO QUE GOSTARIA DE FALAR HOJE.

Perambulei por horas num bairro, visivelmente NADA turístico, e parei num restaurante coreano para almoçar. Nada de luxo, na verdade bastante simples. 

Como eu só havia experimentado dois pratos da cozinha coreana (yakiniku e kimchi), optei pelo que gostava: yakinuku (um prato de carne e legumes grelhados por você numa grelha a gás, acompanhado por molho de soja misturado com saquê). 

Não passei desapercebido aos olhos dos outros quatro clientes do restaurante. Eu era um estranho no ninho, o único ocidental. Fiquei imaginando o que estavam pensando de mim. 

Pouco antes de finalizar o meu almoço, um senhorzinho, mais velho do que eu, olhou diretamente para mim, sorriu e me cumprimentou com um aceno com a cabeça. Fiz o mesmo. 

Meu gesto o motivou a dizer algo e sentar-se a minha mesa. Tentou falar comigo, não sei se em japonês ou coreano. Disse, em inglês, que não entendia. 

O dono do restaurante, atendo ao que se passava, chamou um jovem que se encontrava na cozinha - este falava inglês razoavelmente bem.

A partir daí, os outros três se sentaram à mesa e iniciou-se um diálogo bilingue truncado pela tradução…

Quiseram saber sobre minha origem, por que estava lá, em que eu trabalhava, o que estava achando de Kyoto, se tinha gostado da comida, o que eu tinha visitado e coisas assim.

Aproveitei para saber deles. Como era viver no Japão. Confesso que aprendi muito.

“Eu sou um burakumin", disse o idoso sorridente.

Eu nunca havia ouvido este termo e acabei recebendo uma verdadeira aula de história japonesa.

No Japão antigo havia o sistema de castas como na Índia.

A pirâmide era formada, no topo pelos samurais, seguido pelos fazendeiros, artesãos e na base pelos mercadores. Além deles existiam os burakumin, que eram considerados impuros e inferiores. Eram originalmente membros de comunidades rejeitadas na era xintoísta e budista do século XVIII, compostas por pessoas com ocupações consideradas impuras ou contaminadas pela morte (como carrascos, funerários, trabalhadores de matadouros, açougueiros ou curtidores).  Essas pessoas carregavam estigma social de "contaminados” ligado a si.

Por esta razão viviam em guetos e isolados da sociedade. 

Somente no século XIX puderam morar fora dos guetos, mas o preconceito continuou e só conseguiam trabalhos como carniceiros, funerários, e em outras profissões 'impuras', como saneamento. 

"Atualmente, o preconceito é muito menor, proibido por lei.  De 2 a 3% da população do Japão é formada por burakumin".

O jovem tradutor me disse ainda que esconde suas origens para evitar o preconceito. Ele disse que certas empresas demitem o funcionário, se ele revelar sua origem burakumin. O pior, segundo ele, é que existem, ainda hoje, famílias japonesas que pesquisam a origem do pretendente a casamento para evitar que seus filhos ou filhas se casem com algum membro de origem burakumin. 

O jovem tradutor me contou o seguinte: "certa vez, minha esposa e eu estávamos visitando parentes do pai dela e quando eu disse a eles o que eu fazia, eles pararam de me servir cerveja."

Em meados da década de 1970, um grupo que luta pelos direitos dos burakumin descobriu a existência de uma lista manuscrita de 330 páginas de nomes Buraku e locais da comunidade que viviam. Essa lista estava sendo vendida secretamente aos empregadores por correspondência.

“E pior, muitas empresas japonesas de grande nome estavam usando a lista para rejeitar candidatos a empregos.

Por esta discriminação, no passado muitos burakumin acabavam se associando a Yamaguchi-gumi (a maior facção Yakuza do Japão).  

Felizmente", complementa o jovem, “Você não vê tanto discurso de ódio como antes - e aqueles que o tentaram foram forçados a pagar indenização em processos judiciais”.

"Ainda hoje é possível ouvir sobre discriminação no local de trabalho e pichações anti-burakumin, mas as pessoas estão usando as redes sociais para informar quando isso acontece.”

"O velho Japão está se modernizando!”.

Quando olhei para o salão vi que havia mais de dez pessoas atentas à nossa conversa… segundo o jovem tradutor “os brasileiros são muito bem-vistos pelos burakumin por não serem preconceituosos. Talvez por isto o interesse deles em conhecer o professor brasileiro que estava visitando nosso bairro".

Ele tinha razão. Já fazia mais de três horas que lá estávamos quando um senhor, falando em inglês,  me convidou para visitar sua casa. 

Me despedi do pessoal, cumprimentei um a um no estilo oriental e agradeci a excelente acolhida e a conversa super agradável e esclarecedora.

Antes de sair, tirei algumas fotos com o grupo e me comprometi em não divulgá-las nas redes sociais.

FIQUEI EMOCIONADO COM ESTE ENCONTRO. Falei para mim  mesmo: "Sou um sortudo ou as pessoas daqui são realmente cordiais". 

Andamos pouco mais de dois quarteirões e chegamos, não numa casa, mas num pequeno ateliê de artes plásticas. “O senhor sabia que muitos artistas famosos são descendentes dos burakumin?” E me citou nomes que não consegui memorizar. Mencionou também que o ex-governador de Osaka era um burakumin.

Nossa conversa, acompanhada de chá verde, tipo Sencha, um chá mais escuro e adstringente do que o chá verde que eu estava acostumado, girou em torno de como a arte cria ponte entre as pessoas e torna o ser humano mais aberto às diferenças.

Seus quadros e desenhos retratavam basicamente "trabalhadores impuros" no passado   (açougueiros, pessoas que comiam carne, caçadores,  limpadores de rua, coveiros e até prostitutas). 

Eu diria que suas obras confrontam, de forma sutil, as pessoas que ainda discriminam os burakumin.

Estava escurecendo quando me despedi do senhor Tadashi que, gentilmente, me acompanhou até a estação do metrô.

Por um momento, fiquei contente de meu irmão não estar comigo. Se estivéssemos juntos nunca iria se aventurar a explorar esse bairro distante. Para mim, foi o dia mais importante desta visita a Kyoto. 


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Aconteceu comigo

 Em 2014, fiz uma viagem solitária de 80 dias pela Europa, num triciclo.



Relato aqui um dos inúmeros eventos que vivenciei.

No 22o dia saio de Alfta em direção a Asarna.

Optei por uma rota pouco usual: pegar a rodovia 296 em vez da 83. 

Queria passar pela zona rural, madeireira.  Valeu a pena?  Segundo o poeta:

"Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena”.

Muito verde, Num trecho fiquei mais de 1 hora sem ver uma alma viva! Nenhum carro cruzou comigo neste período e para complicar, a qualidade daquela estrada secundária tinha o padrão brasileiro de buracos…

Finalmente, vi uma placa, "Välkommen till Los”. 

Pensei comigo mesmo “graças a Deus, vou parar,  tomar um café quente e encher o tanque de gasolina, que já estava com menos de 1/4”.

Doce ilusão.

A cidadezinha tinha uma bonita igreja (fotografei), umas 20 casas, mas nenhum posto de gasolina …

Rodei mais uns 20 km e finalmente encontrei um posto. 

O interessante foi que, pouco depois que abasteci, um caminhão de 8 eixos carregado de toras de madeira parou na bomba de diesel do outro lado. O motorista desce. Era uma loira que parecia ter uns 20 poucos anos. Fiquei impressionado. Pensei comigo:  "Aqui é a Suécia mesmo. Uma pessoa tão jovem dirigindo um caminhão deste tamanho”. 

("Eta pensamento machista" sussurra Simone de Beauvoir no meu ouvido).

Acho que olhei demais. De repente, em voz alta, na frente de todo mundo, ela diz:

"Hey, grandpa. Where did you come from with this trike?”

Respondi: "Germany".

"Volkswagen engine?”

"No, Ford, 1,4 liters".

"Cool. Have a nice trip, grandpa”.

Ela me chamou de vovozinho!!! 

Ela disse isso para me humilhar? Se foi isso, ela foi muito educada. Poderia ter dito:  “Tá olhando o que, meu?”

Não estava interessado nela. Só estava confirmando que neste país não existe trabalho típico para homem ou mulher… 

Pelo trajeto vi mulher dirigindo trator, ônibus, taxi, mulher pintando muro… Muito antes dos americanos ou de nós, eles trabalharam para acabar a desigualdade de gênero no mercado de trabalho.

Finalmente, chego em Åsarna. 

E ESTE É O PONTO QUE INTERESSA E GOSTARIA DE CONTAR:

O Hotel "Big Moose" (que reservei no Brasil) estava fechado. Nenhum carro lá fora. Uma aviso colado na porta dizia para ligar para um determinado número. Liguei. 

DEPOIS DE UNS 10 MINUTOS APARECEU, DE CARRO, A ATENDENTE, ENTREGOU A CHAVE, COBROU E FOI EMBORA. SIMPLES ASSIM.

Eu era o único cliente hoje. Isto provavelmente não aconteceria no Brasil. Deixar um desconhecido SOZINHO no hotel com tantas bebidas no barzinho, TV e aparelho de DVD nos quartos…

Já no quarto, uma placa em inglês dizia que, na recepção não ficava ninguém a noite. Recomendava não esquecer de trancar a porta da recepção do hotel ao sair. 

Claro que o restaurante não funcionaria naquele dia. Rodei uns 2 quilômetros para encontrar um local para jantar. 

Comi salsicha de Fulan, típica da Suécia, com purê de batatas. Confesso que não gostei, mas era a melhor opção disponível.  

Na manhã seguinte, ao levantar pensei: 

“Dancei, vou ficar sem o café da manhã que estava incluso no preço!”.

Mas, um pouco antes da minha saída do hotel, chega a atendente. Ela trouxe uma bandeja com suco de laranja (aqueles em caixinha), café numa cafeteira, iogurte, pão e frios… 

Eu fui mesmo o único hóspede do hotel !!!

E a única pessoa que passou a noite no hotel.

UM DIA CHEGAREMOS A ESTE PONTO DE CONFIAR NAS PESSOAS ?


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Viajar só é preciso

 Viajar só é preciso. 

O destino? 

Qualquer que seja este destino, esta jornada será sempre um encontro consigo mesmo. 

Foi o que aconteceu comigo quando, sentado lá em Nordkapp, no chão,  ouvindo as músicas que amo e vendo o sol da meia noite! 

Tive a oportunidade de refletir como foi importante para mim esta viagem solitária de triciclo. 

Como me sentiria se nunca conseguisse realizá-la? 

Depois dos 60, a consciência da morte me afetou de forma muito profunda. Senti a necessidade de me libertar da rotina e dedicar o maior tempo possível para realizar aqueles sonhos sufocados pelos compromissos cotidianos: 

-Uma longa viagem de triciclo até o extremo norte da Europa; 

-Percorrer o Caminho de Santiago novamente; 

-Ver a Aurora Boreal; 

-Visitar a Universidade de Uppsala na Suécia para apaziguar a mágoa de não ter utilizado a bolsa de estudos que ganhei após a conclusão do curso de graduação; 

-Escrever outro livro; 

-Brincar com meus netos. 

Quantas pendências ainda preciso eliminar para partir com serenidade?

Para um ateu, como eu, que reconhece o imenso valor de estar vivo, de possuir a capacidade de poder pensar, sentir e se emocionar, a responsabilidade de querer deixar de existir é enorme. 

Quando minha lista de sonhos a realizar for a zero, qual a razão para eu continuar vivendo? 

Reconheço que não vivo para servir outros. Sou escravo de mim mesmo. Sou prisioneiro de minhas necessidades e sonhos, mas de forma alguma, ficaria ou seria feliz causando sofrimento ou prejudicando outros. Meus valores morais dão sentido a minha vida. E minha vida só tem sentido se estiver enriquecendo meus sentimentos e minha visão de mundo. 

Olhando aquele espetáculo da natureza, senti que tenho, ainda, muito que crescer, aprender e viajar...